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Vida alternativa

Texto vencedor  do Concurso Texto FENAE 2012 –  Tema: Mulheres Vencedoras

Por YRCamargo

 

Segunda-feira, ressaca do fim de semana. Fecho os olhos com força tentando ignorar a luz do sol que entra pela janela. Flashes do fim de semana passam por minha cabeça, vejo tudo o que ficou e o que se foi, aquilo que agora é apenas pensamento. Com um sorriso bobo nos lábios resolvo levantar e encarar mais um dia.

Meu nível de chocolátria está abaixo do normal, então tão logo estou de pé já me atiro à minha barra de chocolate de cabeceira. Não descansei o suficiente à noite, então ainda estou com sono, cansada, sem fome e com saudades. Sinto saudades de nossos risos e sorrisos, saudades das loucuras que cometemos, dos momentos, das bobagens, da alegria e da vida simples e sem problemas que vivo quando estou ao lado dele. Quando estamos juntos me sinto literalmente nas nuvens, acima de tudo e de todos.

Esqueço-me da chefe mal caráter, das colegas falsas e dos clientes ignorantes. Não há cobranças nem dívidas a pagar. Quando estamos juntos é como se contos de fadas existissem e eu vivesse num mundo encantado. Já sinto saudades das horas que passam sem parecer passar, pois quando estamos juntos o tempo não existe. Já sinto falta da felicidade, do que é ser especial, de um ser especial que surgiu a poucos dias em minha vida, mas espero que fique se não pra sempre, pelo menos por um bom tempo, tempo que aproveitarei para ser mais feliz.

Ainda tenho um tempo antes de sair para meu martírio diário, que reluto chamar de trabalho. Aproveito para organizar a vida de verdade, tomar decisões, analisar o rombo do final de semana, afinal, são ingressos, maquiagens, restaurantes, alegria, transporte, roupas, tudo quanto pode parecer não ter preço, mas tudo com seu custo.

Felizmente há semanas meus balanços dos fins de semana sempre são positivos, custe o que custar. Cada vez mais sinto que há esperança para minha vida. A cada nova emoção, cada nova sensação, a cada novo lugar que conheço, coisas novas que descubro e as surpresas que jamais poderia esperar. Cada fim de semana melhor que o anterior, mas pior que o posterior.

As dores, o sono, o cansaço, tudo é transpassado pelo saber que valeu a pena cada segundo, cada instante e cada minuto. Cada olhar trocado, por segundos ou por horas, cada hora não dormida, não descansada e não comida. Toda dor e mal estar não demonstrados, tudo o que superei e suportei. Agora me reavivei e vivo da esperança de que tudo não se acabe.

E é neste momento que todo sonho vira pesadelo, quando a expressão dos sentimentos e o medo de errar se somam num turbilhão de receios e maus pressentimentos. A vida que escolhi seguir impede que eu possa ser feliz com a vida que desejo seguir. Por mais que eu ache que as coisas poderiam dar certo, poderiam ser melhor, é como se despertasse de um sonho e me encontrasse no meio de um pesadelo real. Como eu queria que tudo fosse diferente agora.

Se ao menos eu tivesse a força e a coragem que preciso para desistir dessa minha vida alternativa. Mas coragem sempre me faltou e por isso escolhi o caminho mais fácil, embora possa parecer mais duro para muita gente. Então só me resta ter esperança de que meu príncipe me aceite como eu sou. Príncipe, acho que posso chamá-lo assim, porque é o que espero, um príncipe que venha me resgatar desta vida de imundícia que levo, que me aceite como eu sou e me dê a força e a coragem que preciso para me livrar dos meus erros do passado e do presente.

Saio então para trabalhar e sem perceber já estou sonhando novamente. Sonho com a aceitação, com a felicidade e com minha liberdade verdadeira. Fecho os olhos e me preparo para encarar mais um dia, tendo que viver na profissão que escolhi, porque é só o que me resta, já que minha família, amigos e agora meu amor, ninguém sabe o que realmente eu sou. Infelizmente ninguém aceitaria a vida que eu levo, pois pra falar a verdade, nem eu mesma consigo aceitar. Minha profissão? Garota de programa.

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Publicado por em junho 19, 2012 em CRÔNICAS E CONTOS

 

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INVASÃO

Um texto de Y. Camargo – baseado em fatos reais

 

1. Candura

 

1995. Um novo dia começa. Ele abre os olhos e se encontra acordado em seu pesadelo diário. Lembra-se, com pesar, do sonho que tem se repetido quase todas as noites. Os garotos rindo dele, sua prima, sua babá, seu choro. A esperança quanto ao fim da angústia há muito tempo tinha morrido, mas o que poderia fazer? Levanta-se, então, para viver sua desgraça.

 

Escova os dentes, toma banho e caminha a passos lentos até a cozinha. Está sozinho em sua casa, pois seus pais trabalham fora, e os irmãos estão estudando. Agora que tem 12 anos já não precisa mais de babá. Uma babá… Ele se lembra, foi uma babá que deu inicio ao fim de sua vida de forma tão prematura. Os desejos labirínticos da babá trouxeram humilhação, medo, revolta e vergonha a sua vida.

 

_ Já chegou lindinho? Que coisa mais linda. Como foi na escolinha hoje?

_ Tudo bem, Cy… O Alex e a Jú já foram pra escola?

_ Já sim.. – responde Cy, a babá, com um sorriso impudico nos lábios – Somos só você e eu.

_ Posso te contar uma coisa, Cy?

_ Claro que pode Beto. O que é?

_ Tem uma menina, na escola. Acho que ela gosta de mim.

_ E por que você acha isso, hein, espertinho? – Questiona a babá rindo de forma pungente.

Beto responde sem graça.

_ Ela me beijou hoje.

Cy, fingindo-se abismada exclama:

­_ Sério. Uau. Mas beijou na boca?

_ Não, não. ­Responde o menino com o rosto corado de vergonha.

_ E por que você não a beijou? Cy pergunta, mas o garoto não responde, apenas abaixa a cabeça tentando esconder sua vergonha. _Você não sabe beijar? É por isso? Cy sorri, um sorriso malicioso. _Não se preocupe, eu vou te ensinar. Vou te ensinar tudo o que você precisa saber sobre mulheres.

 

Alguém bate na porta e Beto acorda. Tinha adormecido no sofá após o café da manhã, enquanto pensava na Cy, a babá que ele culpava angustiosamente por sua infelicidade. Ao abrir a porta uma surpresa: sua prima Liliane. Seria tudo coincidência? Os sonhos, os pensamentos que não saiam de sua cabeça, a babá e agora sua prima, a co-causadora de suas dores e medos. Ao olhar no fundo daqueles lindos olhos azuis ele mergulha novamente em seus pensamentos que relembram os dias que antecederam a sua ruína.

 

_ O que vocês estão fazendo?

_ Hã… Oi Lili… – diz a babá sem saber como reagir.

A situação era realmente muito estranha. A babá, deitada no sofá com a saia levantada e sem calcinha, era beijada por Beto, mas não na boca; eram outros lábios que ele beijava. E ainda hoje, depois de tantos anos, ele se lembra do gosto de sua babá, o sabor do líquido que fluía dela, misturado com o gosto de seus pêlos. Não era ruim, mas também não podia dizer que era gostoso, ele não sabia o que era, não entendia, sabia apenas que gostava, sabia que era bom.

 

_ Tudo bem Beto? O que foi?

Beto foi trazido de volta ao presente por Lili.

_ Ah… Sim, tudo bem. E você? O que faz aqui?

_ Sua mãe pediu para eu passar  e pegar uma sacola que ela esqueceu no quarto.

_ Ah. Tá bom. Pode ir lá pegar.

 

Ela vai até o quarto e lá está a sacola em cima da cama, mas ela não vê apenas a sacola, na cama, ela vê o seu passado.

 

_ Vem Betinho, estamos esperando. – Lili está deitada com a babá na cama. Estão se acariciando e esperando por Beto. Lilli vai à casa dele antes de ir para a escola sempre que possível. Como ela mesma diz, ela vai brincar de médico. A sádica babá tem 17 anos, Lili 12 e Beto apenas 7 anos.

 

_ Puxa Betinho, que demora. – Diz a babá. _ Nós precisamos tomar nossa injeção. – Betinho entra no quarto, pelado, enquanto elas riem e se preparam para a diversão iminente, para o prazer inocente e ao mesmo tempo ilícito que compartilham em segredo.

 

_ Encontrou a sacola Lili?

_ Hã… O que? Ah, sim, a sacola, encontrei. Já estou indo. – Lili então sai com um sorriso buliçoso no rosto, ainda relembrando as peripécias de sua puberdade.

 

Comparado ao que estava por acontecer, a tarde de Beto foi tranqüila. Foi para a escola, esteve com seus colegas, fez os deveres, enfim, viveu mais uma tarde  de forma quase inerte e sem grandes transformações; mas mudanças aconteceriam sim, naquela noite, quando seu segredo tomaria um novo rumo.

 

Ao sair da escola  vai até a casa de um amigo que mora ali perto. Enquanto espera em frente ao portão, um garoto aparece. O coração de Beto pára, seu sangue gela e ele fica imóvel, sem saber o que fazer. Enquanto o rapaz se aproxima , Beto se restabelece do choque e tenta correr, mas é impedido pelo outro, que joga sua moto abrasivamente sobre ele.

 

_ Pode parar ai moleque, onde pensa que vai? Você não pode fugir de mim. Não quer que eu conte tudo para seus pais, não é?

 

A mesma chantagem ouvida todas às vezes nos últimos cinco anos, de formas diferentes e de pessoas diferentes, mas a mesma ameaça que o prendia no pesadelo, e que só piorava a cada vez que ele cedia às exigências de cada chantagista. _ Vamos brincar, pirralho.

 

2. intimidação

 

Deitado na cama e tremendo de medo, Beto chora e pensa em como tudo isso começou. Ele lembra de Lili e Cy deitadas nuas na cama esperando por ele. Se vê chegando e se deitando com elas, ouve os risos, os gritinhos, os gemidos e sente o cheiro do prazer delas. Ouve então aqueles a quem até então ele considerava seus amigos chamando no quintal de sua casa. Ele grita, pedindo para que esperem ao mesmo tempo em que percebe a janela do quarto aberta. Tudo acontece rápido demais. Seus três amigos aparecem na janela como que saídos do nada. A primeira reação dele é a de levantar e se vestir. Os amigos, depois de um tempo apreciando a imagem deliciosa, saem correndo e gargalhando. Beto corre pelo corredor da casa, tentando alcançar a porta o mais rápido possível. Ele teme que saiam para a rua e contem o que viram, sabe-se lá para quem. Era um segredo que a babá e a prima o fizeram jurar que jamais seria contado a ninguém. Nem queria imaginar o que aconteceria se aquilo fosse descoberto pelas pessoas erradas, ou seja, seus pais.

 

Beto então os alcança, e quase chorando, implora para que não contem nada. O desespero é visível em seu olhar e em sua voz. Eles garantem que não contarão a ninguém e Beto fica um pouco mais tranqüilo. Volta e diz à Cy e Lili que eles não incomodarão mais. Terminava ali sua vida de aventuras com a babá e a linda priminha, porém começa também uma nova vida de terror e pesadelo.

 

Sem saber como seria a reação de seus amigos depois da descoberta, ele vai para a rua na mesma noite para encontrá-los numa construção onde costumavam brincar. Ele era o mais novo, com apenas 7 anos. Não raramente era ludibriado por eles, moleques dois, três, até cinco anos mais velhos que ele. Chegando ao terreno, ouve murmúrios que cessam com sua chegada. No rosto deles um olhar diferente e o mesmo sorriso malicioso que tantas vezes viu no rosto da Cy. Eles se aproximam; Beto sente seu coração disparar e na verdade seu coração quase sai pela boca quando ouve, pela primeira vez, a chantagem que o prenderia num pesadelo de  muitos anos. _Beto, nós estávamos falando sobre o que vimos hoje, e seus pais com certeza ficarão muito bravos quando descobrirem, não é mesmo? – Beto apenas olha com desespero enquanto continuam. _Claro que você pode ficar tranqüilo, pois não vamos contar nada pra ninguém…mas você vai ter que brincar com a gente.

 

3. porviR

 

De volta ao presente, Beto ouve sua mãe abrindo a porta do quarto. Ela diz que um amigo está chamando. Ele pede para dizer que não poderá sair, pois está muito mal. Ela, preocupada, pergunta o que ele tem, mas ele não sabe o que dizer. Alguns minutos depois outro garoto aparece no portão e o chama. A mãe de Beto diz que ele não poderá sair porque não está bem, e o garoto vai embora. Beto sente medo, assombro e pânico. Ele conseguiu escapar até agora, mas até quando poderá se esconder?

 

A mãe de Beto desconfia de que alguma coisa esta errada, mas não imagina o que pode ser. Ela espera seu marido chegar, explica o que aconteceu e sua desconfiança. O pai, que outrora já desconfiara de certas conversas estranhas ouvidas certa vez entre Beto e uns garotos na rua, temeu pelo que poderia estar acontecendo.  Mal sabia que seus temores eram reais e estavam acontecendo há mais tempo do que poderia imaginar.

 

Beto se assusta ao ver o pai entrar no quarto, sério e até parecendo um pouco bravo. Era como se ele já soubesse. Beto começou a se sentir mal de verdade, e quando seu pai perguntou o que estava acontecendo, ele sabia que não poderia mentir, mas como uma criança contaria ao seu pai um fato tão decepcionante?

 

Porém, decidiu seguir em frente ao pensar em todas às noites de choro, em todas às vezes que apanhou, sendo forçado a fazer coisas que não suportava, todas às vezes que fugiu correndo pela cidade, indo a lugares desconhecidos, com asco e medo. Não conseguia nem imaginar qual seria a reação de seu pai. Pensava que provavelmente seu pai ficaria bravo e decepcionado, com razão, é claro, seja pelo fato em si, seja por ter deixado acontecer por tanto tempo e nunca ter contado.

 

Imaginava seu pai sem falar com ele, ou brigando e batendo nele. Quem sabe até mesmo expulsando-o de casa. Mas de uma coisa  tinhacerteza:  depois de mais de cinco anos, era a única forma de acabar com aquele pesadelo, de se libertar. O medo ainda duraria um tempo, assim como o ódio e a tristeza, mas pelo menos seria livre. Finalmente, era chagada a hora da verdade: _Pai, estes moleques que estão ai fora, e alguns outros, me forçaram a fazer sexo com eles…

 
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Publicado por em novembro 4, 2009 em CRÔNICAS E CONTOS

 

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