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Arquivo da categoria: CRÔNICAS E CONTOS

Só uma vaga lembrança

Antes eu achava que era só impressão, mas pelo que eu tenho lido, pesquisas confirmar que a facilidade da internet, assim como a popularização dos smartphones, está deixando nossa memória mais preguiçosa. Quer dizer, antigamente nós realmente aprendíamos as coisas, ou pelo menos decorávamos. Hoje em dia, se eu não sei algo, se tenho alguma dúvida, eu não preciso mais aprender, pois tenho a resposta na palma da mão, basta digitar o que eu quero, aliás, basta falar o que eu quero saber e a resposta surge na tela do celular. Aí é só ler, usar para o que interessa e… descartar, porque se eu precisar novamente, sei que estará ali.

A cada dia que passa menos as pessoas tem se preocupado em conhecer sobre as coisas de forma mais profunda, um simples tweet com seus 140 caracteres, uma simples imagem compartilhada no Facebook, uma manchete publicada no Google Plus já é recebida como informação e, muitas vezes, assumida como verdade.

Antigamente armazenávamos as informações na nossa cabeça, hoje em dia temos os bookmarks e as wikis para cuidar disso e em caso de dúvida, basta perguntar à quem tudo sabe e tudo vê, o Google.

O pior (ou seria melhor?) de tudo é que isso não se restringe a conhecimentos gerais ou específicos. Nossa vida pessoal também tem sido atingida. Sabe aquele evento, aquela festa? Não?! Tudo bem, basta dar uma pesquisada nos Facebooks da vida. Não lembra onde esteve na última semana? Não tem problema, basta acessar seu histórico do Foursquare. Assim, cada compromisso, livros lidos, listas de desejos, tarefas do dia a dia, enfim, tudo em nossa vida parece estar ficando armazenado não mais em nossa mente, mas na nuvem, e a cada dia nossas principais memórias são as RAMs e ROMs, de resto, tudo não passa de uma vaga lembrança.

 
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Publicado por em fevereiro 27, 2014 em CRÔNICAS E CONTOS, TECNOLOGIA

 

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Vida alternativa

Texto vencedor  do Concurso Texto FENAE 2012 –  Tema: Mulheres Vencedoras

Por YRCamargo

 

Segunda-feira, ressaca do fim de semana. Fecho os olhos com força tentando ignorar a luz do sol que entra pela janela. Flashes do fim de semana passam por minha cabeça, vejo tudo o que ficou e o que se foi, aquilo que agora é apenas pensamento. Com um sorriso bobo nos lábios resolvo levantar e encarar mais um dia.

Meu nível de chocolátria está abaixo do normal, então tão logo estou de pé já me atiro à minha barra de chocolate de cabeceira. Não descansei o suficiente à noite, então ainda estou com sono, cansada, sem fome e com saudades. Sinto saudades de nossos risos e sorrisos, saudades das loucuras que cometemos, dos momentos, das bobagens, da alegria e da vida simples e sem problemas que vivo quando estou ao lado dele. Quando estamos juntos me sinto literalmente nas nuvens, acima de tudo e de todos.

Esqueço-me da chefe mal caráter, das colegas falsas e dos clientes ignorantes. Não há cobranças nem dívidas a pagar. Quando estamos juntos é como se contos de fadas existissem e eu vivesse num mundo encantado. Já sinto saudades das horas que passam sem parecer passar, pois quando estamos juntos o tempo não existe. Já sinto falta da felicidade, do que é ser especial, de um ser especial que surgiu a poucos dias em minha vida, mas espero que fique se não pra sempre, pelo menos por um bom tempo, tempo que aproveitarei para ser mais feliz.

Ainda tenho um tempo antes de sair para meu martírio diário, que reluto chamar de trabalho. Aproveito para organizar a vida de verdade, tomar decisões, analisar o rombo do final de semana, afinal, são ingressos, maquiagens, restaurantes, alegria, transporte, roupas, tudo quanto pode parecer não ter preço, mas tudo com seu custo.

Felizmente há semanas meus balanços dos fins de semana sempre são positivos, custe o que custar. Cada vez mais sinto que há esperança para minha vida. A cada nova emoção, cada nova sensação, a cada novo lugar que conheço, coisas novas que descubro e as surpresas que jamais poderia esperar. Cada fim de semana melhor que o anterior, mas pior que o posterior.

As dores, o sono, o cansaço, tudo é transpassado pelo saber que valeu a pena cada segundo, cada instante e cada minuto. Cada olhar trocado, por segundos ou por horas, cada hora não dormida, não descansada e não comida. Toda dor e mal estar não demonstrados, tudo o que superei e suportei. Agora me reavivei e vivo da esperança de que tudo não se acabe.

E é neste momento que todo sonho vira pesadelo, quando a expressão dos sentimentos e o medo de errar se somam num turbilhão de receios e maus pressentimentos. A vida que escolhi seguir impede que eu possa ser feliz com a vida que desejo seguir. Por mais que eu ache que as coisas poderiam dar certo, poderiam ser melhor, é como se despertasse de um sonho e me encontrasse no meio de um pesadelo real. Como eu queria que tudo fosse diferente agora.

Se ao menos eu tivesse a força e a coragem que preciso para desistir dessa minha vida alternativa. Mas coragem sempre me faltou e por isso escolhi o caminho mais fácil, embora possa parecer mais duro para muita gente. Então só me resta ter esperança de que meu príncipe me aceite como eu sou. Príncipe, acho que posso chamá-lo assim, porque é o que espero, um príncipe que venha me resgatar desta vida de imundícia que levo, que me aceite como eu sou e me dê a força e a coragem que preciso para me livrar dos meus erros do passado e do presente.

Saio então para trabalhar e sem perceber já estou sonhando novamente. Sonho com a aceitação, com a felicidade e com minha liberdade verdadeira. Fecho os olhos e me preparo para encarar mais um dia, tendo que viver na profissão que escolhi, porque é só o que me resta, já que minha família, amigos e agora meu amor, ninguém sabe o que realmente eu sou. Infelizmente ninguém aceitaria a vida que eu levo, pois pra falar a verdade, nem eu mesma consigo aceitar. Minha profissão? Garota de programa.

 
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Publicado por em junho 19, 2012 em CRÔNICAS E CONTOS

 

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Concurso Texto FENAE 2012

Meu texto “Vida Alternativa” ganhou o 1º prêmio no Concurso Texto FENAE 2012 – Tema: Mulheres Vencedoras. A FENAE é uma federação das associações que reúnem empregados da Caixa do Brasil inteiro. Para ler o texto premiado, publicado no hot-site do concurso, clique aqui. Em breve publicarei o texto aqui no blog também.

Esta é a segunda vez que ganho o concurso da FENAE, e a terceira vez que ganho um concurso de texto/crônica, levando em consideração o concurso Gente de Talento da Caixa, onde meu texto foi um dos vencedores e foi publicado no livro Gente de Talento 2007, com outros contos, poesias e fotos vencedoras do concurso.

Pra quem tiver interesse, seguem os meus outros textos vencedores.

Burrocratização do Namoro – Gente de Talento 2007 

Ainda tem Salvação? – 1º Prêmio no Concurso Crônica FENAE 2008

 
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Publicado por em junho 18, 2012 em CRÔNICAS E CONTOS

 

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QUANDO O iPHONE NOS DEIXA NA MÃO

Texto de GISELA RAO, publicado na Revista Alpha de fevereiro de 2011

Foi-se o tempo em que a gente tinha de disputar a atenção do nosso homem apenas com o futebol. A tarefa era difícil, mas não chegava a ser árdua. Era só tentar trocar o meia de ligação por uma meia com cinta-liga e animar o ponta de lança do rapaz. Que saudades dessa época, quando, no mínimo, a empreitada acabava no zero a zero. Agora, com a chegada dos gadgets, a briga é desleal. Quando a gente
chega do supermercado com dez sacolas nas mãos e nosso namorado desce as escadas do predinho (sem elevador) correndo e, em vez de nos ajudar, mostra o Milestone novo que ele comprou… Isso só pode significar uma coisa: hoje não vai ter sexo!

Pois é, essa fala até um tempo atrás era das mulheres, para a frustração da rapaziada. E também não se ouvem mais as frases: “Ou esse seu amigo solteiro e sem-vergonha ou eu” nem “Ou esses 50 tipos diferentes de cerveja na geladeira ou eu” e muito menos “Ou esse labrador fedorento ou eu”. Ao contrário, pobre do labrador fedorento, que agora passa seus tristes dias sem ninguém para atirar a bolinha. Se ao menos o iPhone pudesse ser atirado, ele o buscaria feliz da vida, tentando não babar na proteção de silicone da tela do alienzinho diabólico.

Sim, é verdade, estamos com ódio de seus brinquedos eletrônicos e não sabemos como lidar com essa
parada. Não dá nem para ouvir mais o CD do Barry Manilow em casa, porque isso lembra o BlackBerry
dele e aí já viu. O psiquiatra Flávio Gikovate alerta: “Não está fácil encontrar um relacionamento capaz
de sobreviver a um mundo em que cada vez é mais interessante ficar sozinho”. A gente até tenta ter simpatia pelas “coisas”, tenta cultivar uma amizade. Damos apelidinhos meigos, como “A-fonso” para o iPhone e “Minestrone” para o Milestone. Mas não adianta, nos sentimos rejeitadas, relegadas a segundo plano e, mesmo assim, o cara não desgruda a fuça de lá. Não, não, nem pensar em ficarmos sentadas no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar… O jeito é arrumar nossos próprios brinquedinhos ou voltar para o “Nestor”, o vibrador.

Gisela Rao é publicitária. escritora, blogueira e caçadora de lendas urbanas femininas.

Escreva para ela: giselarao@uol.com.br

 
 

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Máscaras do Amor

Mais um texto que escrevi com base em acontecimentos reais. Foram coisas que realmente aconteceram na adolescência, praticamente da forma que eu estou relatando. Confesso que não é dos meus preferidos, mas ainda sim tenho uma espécie de “carinho” por ele, já que de certa forma, narra uma situação que vivenciei no passado.

Por Y. Camargo

“Estou sentado à sua porta, esperando que seu amor saia e me encontre…”

Jaqueline, com um lindo sorriso nos lábios, lê mais um bilhete de amor enviado por Rodolfo. Ele, um garoto tímido, medroso e cheio de vergonhas, que não tem coragem para revelar seus sentimentos pessoalmente. Ela, menina mimada, que não sabe o que é amar, mas espera ansiosa alguém que a ensine. Lê as cartas e bilhetes de seu admirador secreto como quem lê as previsões de chegada de seu príncipe encantado.

– Olá, Jaque. – Os olhos de Rodolfo brilham quando ela passa

– Olá Rô. – Ele treme ao ouvir seu nome ser pronunciado pelos lábios amados.

Rodolfo passa quase que o dia todo na frente da casa da Jéssica. Há uma desculpa para ficar ali, pois em frente à casa dela há uma mureta, que parece um banco, onde ele e os demais garotos da rua ficavam sentados, conversando e se divertindo. Um lugar perfeito para admirar, mas só admirar.

“As máscaras que cobrem meu rosto não me permitem revelar quem sou. Ocultam meu coração e não revelam que sou na verdade seu amante.”

Ninguém sabia de seu amor por Jaqueline, era algo que ele guardava dentro dele, só para ele. Ele sofria, perdia a fome, não tinha vontade de mais nada. Só pensava nela e só queria ela. Ele sofria, mas não fazia nada para amenizar seu sofrimento. Eles eram amigos e ele, bobo, tinha medo de estragar essa amizade. Ficava sempre imaginando os foras que poderia levar e a decepção de Jaqueline se descobrisse seus sentimentos. Ele amava, sem saber o que é amar e sem conhecer o amor.

Jaqueline mostra suas cartas e bilhetes para sua melhor amiga, Patrícia. – Puxa, que lindos Jaque. Bem que eu queria que alguém me mandasse bilhetes com palavras tão lindas. Patrícia também amava alguém, e deseja ser o destinatário dos bilhetes e do amor desta pessoa, afinal, quem ama quer amar, quer amor, quer ser amado.

“Querido diário, hoje quase fui falar com ele. Ia me declarar, dizer tudo o que sinto, o que quero, mas na hora que estava indo, minha amiga Jaque chegou, e eu fiquei com vergonha. Eu queria tanto que ele me notasse. Que viesse falar comigo. Que me amasse.”

O amor é curioso, louco às vezes. Amamos quem não nos ama, e quem nos ama não conseguimos amar. Assim, a vida vai passando, e Rodolfo está cada dia mais desesperançado. Embora tenham crescido juntos e passado muito tempo da infância e da adolescência juntos, hoje Rodolfo e Jaqueline quase não se falam. Estão crescendo, mudando e cada um tem seguido sua vida. Estão concluindo o colégio, pensando na faculdade, em trabalhar. Estão descobrindo o amor de forma diferente, de forma nova, de uma forma sofrida.

Enquanto Rodolfo ama Jaqueline em silêncio, ela ama as palavras de seu admirador, sem saber que ele está tão próximo quanto ela seria capaz de imaginar. Patrícia, enquanto isso, espera o dia em que tomará coragem para revelar seu amor ao seu amado.

“Do que vale amar se não for pra TE amar. Um dia esta máscara eu vou tirar e todo meu amor a você entregar.”

Mas este dia não chegava, parecia na verdade ficar cada dia mais distante. Rodolfo, por medo, se afastava cada vez mais de Jaqueline, que por sua vez, começava a sofrer por não conhecer seu amor. Ela ficava pensando quem poderia ser, de onde a conhecia e como ele fazia para deixar as cartas cada vez em um lugar diferente. Um dia, no portão de sua casa, no outro no meio de seus cadernos, ou dentro de sua mochila. Certo dia, ela se surpreendeu quando uma carta entrou voando pela janela. Ela saiu correndo tentando encontrar seu admirador, mas era tarde, já não havia ninguém ali. Ela pensava: Quem será o amor que me ama em segredo? Até que no seu intimo pensou: Não seria o Rodolfo meu amante secreto? Sinto algo gostoso no olhar e no sorriso dele quando me vê. Ele é legal e sempre nos demos tão bem. Seria legal se fosse ele. Será? Depois de tanto tempo como ele poderia se apaixonar por mim?

Quem entende os caminhos do coração? São caminhos loucos, longe da razão. E nestes caminhos fazemos coisas que ninguém entende. Deixamos acontecer coisas que mudam nossa vida e deixamos ficar dúvidas que nos acompanham pela vida. Mas nunca saberemos o que poderia ter acontecido, se tudo acontecesse de forma diferente.

– Oi Rodolfo.

– Oi Patrícia.

– Posso falar com você? – Patrícia está tremendo, sem saber ao certo o que falar, como falar.

Rodolfo começa a suar. Será que Jaqueline mandou sua melhor amiga falar alguma coisa para ele? Será que ela finalmente descobriu que ele é o autor das cartas e bilhetes e ficou tão chateada que nem quis ir falar pessoalmente com ele? Seus pensamentos estavam fervendo enquanto ele diz: – Claro Pat, tudo bem, pode falar.

– Eu não sei nem como falar. É uma coisa muito delicada.

Imagino que seja, pensa Rodolfo. Você está para dar um golpe em meu coração, e não sabe como fazer. Eu não saberia.

– Eu te amo! Sempre te amei! Sempre quero te amar! Quer namorar comigo?

Silêncio. Rodolfo, Patrícia, ambos ficaram calados, sem reação. Ela não acreditava, finalmente teve coragem para se declarar. Ele não acreditava no que estava ouvindo. Não esperava aquilo. Nunca tinha parado para reparar naquela menina que agora estava sorrindo nervosa na sua frente. Nunca poderia esperar por aquilo e não sabia o que fazer, não sabia o que pensar. Quer dizer, na verdade não conseguia organizar seus pensamentos, pois tantas coisas passavam por sua cabeça que ele não conseguia se concentrar em nada e não sabia o que dizer. Mas, de repente, algo pára todo aquele turbilhão de pensamentos. Jaqueline, vindo em sua direção. Sorrindo, linda, mas tão longe da sua realidade. Na sua frente estava o amor que ele não esperava e agora vinha em sua direção o amor que ele desejavaem segredo. Claro que ela estava vindo por causa de sua melhor amiga, Patrícia e isso apenas acabava ainda mais com suas esperanças de um dia desfrutar do amor de Jaqueline.

_ Oi Rô! 

_ Oi Jaque!

_ Pat, estava mesmo te procurando. Preciso falar com você.

_ Claro. Rodolfo, depois conversamos. E se você quiser me dizer algo, pode me mandar uma mensagem. Estou ansiosa.

Jaqueline achou estranho encontrar Patrícia e Rodolfo conversando, mas depois pensou se eles não estavam justamente conversando a respeito dos sentimentos de Rodolfo por ela.

_ E então, o Rodolfo falou alguma coisa de mim? – Perguntou Jéssica ansiosa.

_ Não, porque?

_ Sei lá, estava pensando, será que não é ele que está me enviando aqueles bilhetes?

Esta simples pergunta caiu como um balde de água gelada sobre Patrícia. Ela nunca tinha pensado nisso, mas agora até que fazia sentido. O jeito que ele olhava pra Jaqueline e o jeito que ela olhava pra ele. Não só era provável que Rodolfo fosse o admirador secreto dela como era quase certo que ela esperava isso.

_ Jaqueline, você está gostando do Rodolfo?

Um sorriso se desenha no rosto de Jaqueline, um sorriso que dispensa qualquer palavra. Neste momento, antes que Jaqueline pudesse responder, um toque do celular de Patrícia avisa a chegada de uma nova mensagem. Ela lê sem acreditar e agora sem saber o que fazer, o que pensar e o que dizer.

“Minha resposta é sim.

Quero namorar com você.

Beijo. Me liga.

Vamos marcar para nos encontrar.

Rodolfo”

 
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Publicado por em julho 8, 2011 em CRÔNICAS E CONTOS

 

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A TEORIA DO AMOR, SUAS VARIAVEIS E SUAS VARIAÇÕES

Este capítulo da série teve a participação muito especial de alguém que estava entrando em minha vida de uma forma muito especial, e pra ficar, minha amiga, minha companheira, Beea Lima. Ela participa não só inspirando partes importantes da história, como também revisou e me ajudou no texto deste capítulo. Foi muito bom contar com a colaboração de uma pessoa tão especial, que com muito orgulho, também é uma grande escritora.

Leia os Capítulos Anteriores: Parte 1; Parte 2; Parte 3

A TEORIA DO AMOR, SUAS VARIÁVEIS E SUAS VARIAÇÕES

Um texto de Y. Camargo

Colaboração: Beea Lima

Prólogo

Não sei mais o que fazer. A gente se dá tão bem. Parecemos tanto um com o outro. Ela me entende e me compreende. É alguém com que valeria a pena passar o resto da vida.


Parte 4: Afinidade

Alguns dias antes

DR _ Humberto. Estou te esperando faz quase uma hora. Onde você está? Você não liga pra mim mesmo hein!

Humberto está atrasado trinta minutos para um encontro com a Jéssica. Ela tem pegado muito no pé dele ultimamente, enquanto ele tem feito o possível para tolerar tudo pacientemente. A atração já não é mais a mesma de antes e a paixão cozinha em fogo brando. O que acontece com um casal quando a atração e a paixão diminuem?

É normal, em determinado momento da relação, as diferenças que antes pareciam não existir virem à tona. É neste momento que os sentimentos são colocados a prova. Ás vezes acontece de um dos parceiros rejeitar o outro, ou haver rejeição mútua. Mas também podem descobrir uma verdadeira afinidade entre eles e mesmo com toda diferença, passa a valer a pena lutar pela construção de um relacionamento que dure. É um momento muito delicado no ciclo de qualquer relacionamento. É como se escamas caíssem dos olhos e finalmente se torna possível enxergar os defeitos do outro. Percebe-se que aquela pessoa, que parecia perfeita, na verdade não é tão perfeita e que seus pequenos defeitos, outrora ignorados, são na verdade grandes e incômodos defeitos.

Humberto e Jéssica estão vivenciando isso de maneira prática. Ao mesmo tempo em que Jéssica tem certeza de que ama Humberto e quer ficar com ele para sempre, ela também percebe suas falhas e defeitos e acabava discutindo com ele, pois para ela, se ele a ama de verdade, como diz amar, ele deve mudar. Mas Humberto também está passando pela mesma fase. Enquanto estavam na fase da paixão, ele estava cego, mas agora ele está começando a encarar a realidade e a seriedade deste relacionamento, e a Jéssica perfeita que conheceu às vezes já não se parece com a que ele vê hoje. Esta é uma fase necessária, porque as pessoas são diferentes uma das outras e sempre há arestas que precisam ser aparadas.

Humberto realmente acredita neste relacionamento, por isso ele tem tentado resgatar o romantismo dos primeiros meses, com palavras, sentimentos e atitudes. Semana passada, por exemplo, ele deu pra ela um colar e agora, mal sabe ela, ele está atrasado porque parou em uma loja para comprar uma cesta com vinho, flores e chocolates, que ele pediu para entregarem no trabalho dela na manhã seguinte, quando completam um ano e três meses de namoro.

Mas mesmo o romantismo é colocado a prova quando estão na delicada fase de transição entre paixão e afinidade, quando se começa a ver o outro à luz do dia, alguns detalhes que pareciam encantadores podem passar a ser irritantes.

_ Humberto, você não cuida da sua casa. O que são estas roupas espalhadas pelo chão? E esta geladeira vazia. Estou com fome, e chego aqui e não tem nada pra comer. Você não está nem ai pra mim mesmo.

Outrora ela até achava graça quando abria a geladeira e não encontrava nada. No máximo dizia: _ Estou com fome. Vamos sair para comprar alguma coisa?

E o Humberto, que sempre ouviu tudo o que ela dizia pacientemente, agora se imagina apertando o pescoço dela, enquanto pensa: Será que eu posso agüentar isso pra sempre? Será que temos alguma coisa em comum?

Encontrar a cara-metade significa encontrar alguém com que se possa construir um relacionamento baseado em companheirismo e interesse comuns, porque quando a fase da paixão passar, e sempre passa, é isso que manterá a chama do amor viva. Um relacionamento tem que ter amizade, para que haja mais do que atração sexual e paixão. Para que haja prazer de conviver e em quem confiar.

_ Humberto. O que está acontecendo? Você não liga mais pra mim. Me diz, qual é o problema? Você não gosta mais de mim? É isso? Pode falar.

_ Jéssica, meu amor, não é esse o caso.

_ Ah. Caso, é isso! Você está tendo um caso com alguém não é?

_ Hã?! Claro que não. Nunca. Você não está bem. Acho melhor a gente conversar quando você estiver mais calma.

_ Então é assim. Você acha que basta fugir pra resolver tudo. Porque não assume o que você quer afinal.

_ Hã?! Claro que não. Nunca! Você não está bem. Acho melhor a gente conversar quando você estiver mais calma.

_ Como assim? O que você está dizendo. Não estou fugindo de nada. Porque você não diz o que quer então? Você quem está incomodada. Você quer terminar? É isso?

_ Isso é típico de vocês homens covardes, tentam esconder as coisas até o último momento, e quando não agüentam mais, fogem. Acham que é mais fácil se acovardar e terminar. Tudo bem, então suma da minha frente. Está tudo acabado.

 
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Publicado por em maio 19, 2011 em CRÔNICAS E CONTOS, RELACIONAMENTO

 

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A TEORIA DO AMOR, SUAS VARIAVEIS E SUAS VARIAÇÕES

Escrever esta série foi interessante, principalmente porque eu mesmo não sabia qual seria o desfecho. Assistia de camarote o desenrolar da história real e, com base nisso, ia escrevendo a história de Humberto e Jéssica. Neste ponto da história, nossos heróis na vida real ainda estava experimentando uma paixão contida, se conhecendo, tratando seus medos e receios, mas eu adiantei um pouco as coisas para os personagens da história, adicionando minhas próprias expectativas pessoais.

Leia os Capítulos Anteriores: Parte 1; Parte 2

A TEORIA DO AMOR, SUAS VARIAVEIS E SUAS VARIAÇÕES

Um texto de Y. Camargo

Prólogo

Eu nunca morri, mas será que o sentimento de morte é algo como o que estou sentindo? Esta dor no peito que me sufoca, a sensação de que toda felicidade deixou de existir em minha vida.

Este é um trecho de um e-mail enviado por Humberto para uma amiga a alguns meses, quando começava finalmente a se dar conta do que queria para sua vida. Algumas pessoas costumam julgar os homens como insensíveis, seres desprovidos de qualquer sentimento. Isso é cultural, como aquela velha história de que homem não chora. Mas apenas um homem que sente a dor de amar, de estar apaixonado ou de perder alguém especial, pode dizer o que e quanto sente. É claro que alguns tentam se esconder por trás de uma máscara de falsa masculinidade, mas isso não passa de ilusão. Homens podem até não saber expressar seus sentimentos, mas eles sentem a perda de um grande amor, eles sofrem, sentem saudades, sentem o frio na barriga, tem o brilho no olhar e enxergam a vida mais colorida e agradável quando se apaixonam de verdade.

Parte 3: Paixão

Dicionários de língua portuguesa definem paixão como: 1 Sentimento forte, como o amor, o ódio etc. 2 Movimento impetuoso da alma para o bem ou para o mal. 3 Mais comumente paixão designa amor, atração de um sexo pelo outro. 4 Gosto muito vivo, acentuada predileção por alguma coisa. 5 A coisa, o objeto dessa predileção. 6 Parcialidade, prevenção pró ou contra alguma coisa. 7 Desgosto, mágoa, sofrimento prolongado. 

A paixão pode ser amor, bem estar e desejo, mas também pode ser mágoa, desgosto e sofrimento. De acordo com os cientistas que persistem em encontrar o amor no cérebro, a paixão seria o segundo “estágio” do ciclo chamado amor. É quando só conseguimos enxergar as qualidades e inconscientemente ignoramos os defeitos do outro, já que, biologicamente, o objetivo da paixão é unir um homem e uma mulher de forma tão intensa que a euforia é incrível. Por outro lado, quando há rejeição, o desespero terrível se apossa da vítima, podendo levar à obsessão. É nesta fase que se encontram os criminosos e suicidas passionais.

Humberto e Jéssica estão se divertindo muito, entre bebidas, conversas e risadas. O momento está sendo especial. Jéssica se sentia até mais bonita e alegre, as mãos molhadas de suor, o coração acelerado e o corpo todo vibrando. Humberto também se sentia assim, se sentia nas nuvens. Chega o fim da noite e o inevitável beijo que os faz derreterem por dentro fecha a noite com chave de ouro.

A manhã está sendo muito mais feliz e a alegria transborda no olhar deles, que se sentem fortes, como se naquele momento nem o pior resfriado pudesse atingi-los. E provavelmente não atingiria mesmo, já que durante o estágio da paixão várias substâncias químicas são liberadas no organismo fazendo com que a satisfação seja completa e a saúde seja fortalecida. A dopamina provoca a sensação de bem-estar, a feniletilamina aumenta a excitação, a serotonina cria sentimento de estabilidade emocional, a noradrenalina produz a certeza de que tudo é possível e a endorfina que fortalece o sistema imunológico.

_ Jéssica, você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida.

_ Você também Humberto, eu te amo!

Humberto também ama Jéssica, mas não tem tanta facilidade para revelar seus sentimentos como ela. Fazer uma declaração de amor não é problema para ela, é assim mesmo para as mulheres, que possuem uma estrutura cerebral que enche seu mundo de sentimentos, emoções, comunicação e palavras, mais um motivo para os homens receberem a fama de insensíveis. Além disso, os homens geralmente não sabem bem o que é o amor, o que é paixão e acabam confundindo com atração. Muitos homens pensam que se não conseguem parar de pensar nela e desejam tocá-la a todo o momento, então deve ser amor.

Mas Humberto sabe que o que sente é mais do que apenas atração, ele está apaixonado por Jéssica, embora não saiba como expressar isso. Por outro lado, Jéssica sente o maior prazer em dizer sempre o quanto ama Humberto, o que deixa Humberto incomodado, pois ele não se sente à vontade para dizer o mesmo, não porque não gosta dela, mas porque para ele declarar seu imposto de renda é muito mais fácil do que declarar seus sentimentos de forma tão aberta. Ele então tenta demonstrar seus sentimentos através de suas atitudes e como tem mais facilidade com a escrita do que com a fala, sempre manda belas mensagens românticas que deixam a Jéssica cada vez mais apaixonada.

Para boa parte dos homens compromisso é uma palavra assustadora e dizer “eu te amo” é a mesma coisa que dizer “quer casar comigo?”, ou seja, significa assumir um compromisso para toda a vida. Por outro lado, tem aqueles homens que desvalorizam o “eu te amo” e saem dizendo a todas em todo lugar. Não percebem que para a uma mulher “amor” é uma palavra mágica que provoca euforia e pode transformar uma relação.

Humberto e Jéssica estão juntos há mais de cinco meses. Quando está com Humberto ela se sente protegida, valorizada e querida. Para ela o relacionamento já passou da fase da atração e está saindo da fase da paixão. É isso o que ela quer, é assim que sente, é o que ela mais deseja, é isso que ela pensa: Isso realmente é amor.

 
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Publicado por em maio 13, 2011 em CRÔNICAS E CONTOS

 

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