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QUANDO O iPHONE NOS DEIXA NA MÃO

27 set

Texto de GISELA RAO, publicado na Revista Alpha de fevereiro de 2011

Foi-se o tempo em que a gente tinha de disputar a atenção do nosso homem apenas com o futebol. A tarefa era difícil, mas não chegava a ser árdua. Era só tentar trocar o meia de ligação por uma meia com cinta-liga e animar o ponta de lança do rapaz. Que saudades dessa época, quando, no mínimo, a empreitada acabava no zero a zero. Agora, com a chegada dos gadgets, a briga é desleal. Quando a gente
chega do supermercado com dez sacolas nas mãos e nosso namorado desce as escadas do predinho (sem elevador) correndo e, em vez de nos ajudar, mostra o Milestone novo que ele comprou… Isso só pode significar uma coisa: hoje não vai ter sexo!

Pois é, essa fala até um tempo atrás era das mulheres, para a frustração da rapaziada. E também não se ouvem mais as frases: “Ou esse seu amigo solteiro e sem-vergonha ou eu” nem “Ou esses 50 tipos diferentes de cerveja na geladeira ou eu” e muito menos “Ou esse labrador fedorento ou eu”. Ao contrário, pobre do labrador fedorento, que agora passa seus tristes dias sem ninguém para atirar a bolinha. Se ao menos o iPhone pudesse ser atirado, ele o buscaria feliz da vida, tentando não babar na proteção de silicone da tela do alienzinho diabólico.

Sim, é verdade, estamos com ódio de seus brinquedos eletrônicos e não sabemos como lidar com essa
parada. Não dá nem para ouvir mais o CD do Barry Manilow em casa, porque isso lembra o BlackBerry
dele e aí já viu. O psiquiatra Flávio Gikovate alerta: “Não está fácil encontrar um relacionamento capaz
de sobreviver a um mundo em que cada vez é mais interessante ficar sozinho”. A gente até tenta ter simpatia pelas “coisas”, tenta cultivar uma amizade. Damos apelidinhos meigos, como “A-fonso” para o iPhone e “Minestrone” para o Milestone. Mas não adianta, nos sentimos rejeitadas, relegadas a segundo plano e, mesmo assim, o cara não desgruda a fuça de lá. Não, não, nem pensar em ficarmos sentadas no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar… O jeito é arrumar nossos próprios brinquedinhos ou voltar para o “Nestor”, o vibrador.

Gisela Rao é publicitária. escritora, blogueira e caçadora de lendas urbanas femininas.

Escreva para ela: giselarao@uol.com.br

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