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Quirópteros

02 jun

Por Luciano Pires, publicado no livro Brasileiros Pocotó

Tentando entender porquê gente aparentemente inteligente aceita, promove e incentiva a mediocridade em nosso dia-a-dia.

Um dos pontos-chave para entender a mediocridade que assola o País, é a observação de nosso sistema educacional. Num período de 35 anos, desde o início dos anos 70. Lembra?

Não é preciso muito para verificar que ele envelheceu. Estagnou-se. Quebrou. Ficou ultrapassado.

“Mas, como, se todas as estatísticas apresentadas pelo Governo mostram uma melhora substancial? Nunca tivemos tantas salas de aula. Nunca tivemos um número tão baixo na evasão escolar. Nunca tivemos tanta tecnologia a serviço da educação?!”

Pois é aí que mora o perigo…

A maioria dos números que demonstram a melhora substancial da educação no Brasil dizem respeito à forma. E deixam de lado o conteúdo.

É verdade que houve uma melhora substancial, quantificável, no sistema educacional brasileiro, principalmente nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso.

Mas, quando minha filha de 12 anos me chama para ajudar no trabalho de escola, e descubro que ela está aprendendo seno, co-seno e tangente….que está prestes a decorar uma tabela periódica… que mergulha na história de Cartago… coisas que aprendi na escola há mais de 30 anos… penso que alguma coisa está errada.

Pouco ou nenhum esforço é dedicado a ensiná-la a PENSAR.

Despejam-lhe um conteúdo envelhecido, padronizado e desatualizado, que deve ser decorado.

Aí, meu filho mais velho, aos 18 anos, presta vestibular. Olho sua apostila e não acredito no que vejo. Toneladas de conceitos inúteis, fórmulas e questões fora de propósito, nenhuma provocação à criatividade… coisas que, decoradas, serão esquecidas alguns dias após o exame. E que nunca mais servirão para nada.

Nenhuma questão que provoque uma discussão sobre o Brasil, sobre o raciocínio crítico, sobre comportamento…

Recomendo a quem gosta deste tipo de discussão que leia “Por uma Educação Romântica, de Rubem Alves.

E encerro esta argumentação com uma historinha:

Eu tinha 12 anos.

E minha professora de Ciências pediu um trabalho escolar sobre quirópteros: a ordem dos morcegos.

Comprei cartolina (lembra-se?). Pincel atômico. Cola Tenaz (a grande novidade que substituía a goma arábica). E mergulhei na minha enciclopédia Conhecer.

Para encontrar os quirópteros, eu navegava pela enciclopédia, passando pela Grécia Antiga. Depois, pela história da Grande Muralha da China. Pelos dinossauros. Por como funciona um navio. Pelos satélites artificiais…

Motivado pela curiosidade infinita de uma criança, eu viajava pelas páginas, pelas ilustrações multicoloridas, durante horas. Até achar os tais morcegos.

Aí, copiava o texto, recortava revistas, colava na cartolina e, na segunda-feira, levava aquela coisa amassada para a escola e via a professora examinar e me dar a nota.

Era assim o processo.

E nunca mais esqueci o que são quirópteros. Ou como funciona um navio. Ou como morreram os dinossauros…

Pois minha filha de 12 anos recebeu recentemente a tarefa de fazer um trabalho sobre Cartago.

Chegou em casa.

Abriu o Yahoo! e tomou a única providência que a obrigou a pensar: digitou com cuidado: c-a-r-t-a-g-o.

Abriram-se dezenas de sites. Ela escolheu um. Imprimiu. Fez uma capa. Levou pra escola e tirou sua nota…

“Que Inveja!”

Eu não tive esses recursos quando era garoto! Impressora em vez de cartolina! Internet em vez de enciclopédia!

Mas, espera um pouco!

Minha filha não teve a chance de passar pela Grécia Antiga. Depois, pela história da Grande Muralha da China, pelos dinossauros, ver como funciona um navio, os satélites artificiais… e viajar pelas páginas da enciclopédia durante horas. Até achar Cartago…

O computador a levou direto ao ponto. Sem voltas. Sem desvios.

E me pergunto se, daqui a 30 anos, ela vai se lembrar o que era Cartago.

A enciclopédia foi meu mentor. Mesmo quando meus pais ou professores não estavam ao meu lado, eu tinha um guia mágico, uma sucessão de páginas multicoloridas que me levavam por assuntos interessantes e me enchiam a cabeça de informações.

Hoje, com essa vida corrida e exigente, na maior parte do tempo meus filhos não têm ao lado um mentor, um professor exigente. E também não têm a enciclopédia, coisa anacrônica e ultrapassada na visão da garotada multimídia, para guiá-los. Têm “apenas” um programa maravilhoso de navegação na Internet, que os leva direto ao ponto.      Têm mais cor, mais som, movimento. Estão conectados com o mundo. Têm acesso ilimitado à informação.

Só não têm um tutor chamado enciclopédia Conhecer… ou Barsa.

É a isso que me refiro quando falo da deterioração da educação.

Nossos filhos não são obrigados a pensar. Não são motivados a pensar. Não são convidados a pensar. Não são seduzidos pelo pensar.

As fórmulas estão prontas para serem decoradas e rapidamente utilizadas.

Vence quem decorar melhor.

Vence quem melhor assimilar as fórmulas.

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Publicado por em junho 2, 2010 em CRÔNICAS E CONTOS

 

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